É possível “lentificar” em tempos de mundo digital?

Foto por samer daboul em Pexels.com

Vivemos hoje em um mundo que nos exige rapidez e alta produtividade como sinônimo de eficiência, sucesso, prosperidade e realização pessoal. Quanto mais coisas fizermos em um intervalo cada vez menor de tempo, mais “bem-sucedidos” seremos. Então não podemos ser “lentos”, isso não é muito aceitável em uma sociedade que valoriza o ritmo frenético e muitas vezes desenfreado das coisas, com poucas pausas para reflexão e assimilação.

A tecnologia digital e o mundo online facilitaram ou até mesmo foram agentes propulsores para essa aceleração da forma como interagimos e vivemos hoje nossas vidas. A internet é uma rede que diminuiu distâncias e possibilitou que tudo aconteça em tempo real.

Hoje, quando fazemos uma viagem e tiramos uma foto para registrar um momento ou uma paisagem podemos publicá-la no mesmo instante em nossas redes sociais, e todos nossos contatos, próximos de nós ou não na vida “não digital”, podem contemplar aquela mesma paisagem ou momento quase ao mesmo tempo que nós.

Lembro do tempo em que isso ainda não era possível. Tirávamos fotos em câmeras analógicas e usávamos um filme fotográfico, que quando chegava ao final precisava ser levado para revelar. Sim, algo ali seria revelado, trazido à luz. E tinha um tempo de espera, não era imediato. Talvez ainda acontecesse uma reunião com amigos próximos para mostrar as fotos da viagem, contar os fatos engraçados e passar dicas interessantes.  

Agora vemos as fotos de amigos em tempo real. Ouvimos suas histórias em áudios de alguns minutos (que não podem ser muitos para não ficar muito longo e assim poupar o tempo daquele que escuta).

Encurtamos tempos e distâncias, mas precisamos ter cuidado para não esvaziarmos a experiência. A tecnologia veio para ficar e isso é totalmente inquestionável, inclusive porque traz inúmeros avanços positivos para nossa sociedade. Mas no âmbito da nossa vida pessoal, social e emocional, pode nos trazer um enorme vazio de sentido.

O nosso tempo é o agora. Mas não o agora do mundo digital, que exige rapidez e simultaneidade. É o agora da nossa própria presença, do nosso ritmo interno, que se constitui com a nossa respiração, com o contato com quem está verdadeiramente próximo.

Estamos vivendo tempos de distanciamento social, mas esse é mais um motivo para de fato lentificarmos e fortalecermos o vínculo e a presença com aqueles poucos que podem neste momento estar perto de nós.

E que levemos essa lição para quando isso tudo acabar. Talvez os tempos pandêmicos tenham nos ajudado a valorizar mais os pequenos detalhes e prazeres da vida, em contrapartida ao excesso de telas e interações digitais a que fomos expostos.

Que possamos então estar atentos para não sermos engolidos pelo ambiente digital e principalmente, pela sua ânsia por velocidade. O mundo pode até se adaptar a essa rapidez, mas o nosso corpo não. Nosso corpo precisa continuar a viver e sentir e, para isso, precisamos de TEMPO. 

Vivendo tempos incertos

Foto por Artem Podrez em Pexels.com

Estamos vivendo um momento de transição e grandes incertezas. Uma forma de ser e estar no mundo diferente da que conhecíamos e estávamos habituados. Tudo se transformou rápido demais e parece que ainda não sabemos bem o que vem logo ali.

Mas como viver momentos de transição?

Stanley Keleman é um dos precursores no estudo da vida no corpo e sua conexão com os aspectos emocionais e criou o conceito das transições somáticas, que consiste em três etapas da experiência nas mudanças de vida.

Ele define essas etapas como Ending, Middle Ground e etapa formativa. A etapa do Ending consiste em um final, uma despedida de partes de nossas vidas que ficaram obsoletas. Cria-se nessa etapa um espaço vazio, tanto no mundo objetivo quanto na vida emocional. Isso gera uma ansiedade que se deve à uma energia livre que não se encaixa em nenhuma categoria antiga. É o momento de dar fim a algum padrão ou etapa de vida que já não serve mais.

Seguimos então para a etapa que Keleman chama de Middle Ground, definindo-a como uma espécie de caos sem controle, um lugar intermediário onde a espera pelo o que está por vir se faz necessária. Essa fase de espera ou escuta interna pode ser um convite para um mergulho na própria experiência, oportunizando insights, imagens ou sonhos que podem trazer um anúncio sobre um novo modo de viver.

Por fim chegamos à etapa formativa, que para o autor constitui um movimento de organização do nosso corpo que nos impulsiona em direção ao crescimento. Começamos a experimentar um outro modo de usar nossos corpos e a somatizar nossas imagens e emoções. Geramos algo novo, formando um novo padrão de ação, um novo modo de estar vivo.

Passamos por essas etapas muitas vezes em nossas vidas. Vivemos coletivamente no último ano um “ending” de um mundo pré-pandêmico que provavelmente não voltará mais a ser como era antes. Estamos agora nesta grande fase de transição, neste grande “Middle Ground”, para então começarmos a formar juntos um mundo novo que ainda não sabemos como será.

Isso causa muita angústia, um grande vazio do não saber. O futuro incerto. A certeza da incerteza.

Precisamos receber este momento dentro de nós. Fazer essa pausa. Nos despedir de um mundo que talvez não fosse mais possível. Para então gestarmos juntos um novo possível que nem sequer ainda conhecemos.

Momento de criarmos movimento no vazio, rumo a um futuro possível, mas que ainda não conhecemos a forma.

Como anda o seu “sentir”?

Foto por Magda Ehlers em Pexels.com

Olá. Entre e fique à vontade. O ano é 2021. Ou 2020. Ou talvez 2022. Tanto faz. O que você está sentindo aí? Me conta. Nada?

Angústia? Medo? Cansaço? Raiva? Indignação?

Não está nada fácil, não é verdade?

Tédio? Horror? Desânimo? Ansiedade? Desmotivação? Falta de perspectiva em relação ao futuro?

É bastante coisa.

Talvez não esteja nem dando vontade de sentir. Vamos, quem sabe, nos anestesiando também, aos poucos.

Mas e agora, o que vamos fazer?

Confesso que nem eu estou sabendo muito bem o que escrever por aqui. Mas vou tentar compartilhar algo. Ontem ouvi de uma grande estudiosa do trabalho corporal que estamos o tempo todo tendo sensações. Se fecharmos os olhos por alguns segundos com certeza iremos perceber alguma sensação em nossos corpos. Seja de dor, tensão, prazer ou alívio. Em momentos de crise o que nos sustenta/fortalece é a âncora do nosso corpo, nossas sensações, nossas memórias, nossos vínculos.

O momento atual, de excesso de exposição às telas dos computadores e telefones celulares e de distanciamento social nos deixa descorporificados, ou ainda, com corpos “ligados no automático”, distantes do sentir.

Mesmo com o retorno de algumas atividades presenciais e de encontros com pequenos grupos de pessoas, ou ainda para quem necessitou sair de casa durante toda a pandemia, sensações como medo, incerteza em relação ao futuro, luto e tristeza frente a todo esse contexto seguem nos acompanhando, o que pode nos levar a um certo anestesiamento emocional.

Entrar em contato com nossos corpos já um tanto cansados ou até tristes pode então, ser uma boa saída. Uma saída para a vitalidade em tempos tão difíceis. Nossos corpos podem estar desanimados, mas precisamos continuar movendo, nem que seja com micro movimentos. Um dia isso tudo vai acabar, e precisaremos de vitalidade para seguir.

Entramos em contato com nossas sensações e sentidos quando paramos, por exemplo, para observar o pôr do sol, ou uma planta, uma flor, escutar uma música que gostamos, beber ou comer algo apreciando com calma os sabores e aromas. Isso nos causa alguma sensação e retornamos ao nosso corpo, nosso “lar interno”.

Reforçamos a consistência de nossos vínculos quando conseguimos compartilhar o que sentimos com as pessoas que confiamos, com quem pode estar sentindo o mesmo. Podemos formar assim pequenas redes de apoio, nomeando melhor nossas dores e angústias, que podem ser as mesmas do outro, e isso agora se faz urgente e necessário.

Podemos assim resgatar nossas curas através das expressões autênticas e criativas de nossos corpos. O momento é de medo, dúvidas e questionamentos, de angústia existencial e busca por sentido. Mas precisamos seguir e a saída está no nosso próprio eixo. Estar presente e consciente pode ser menos cansativo do que fugir da dor.  Não sentir não vai nos ajudar ….. e precisamos continuar a sonhar.

Desmistificando a Meditação

Foto por nicollazzi xiong em Pexels.com

Vamos falar sobre meditação? Este assunto tão comentado em artigos, cursos e workshops mas que, ao meu ver, ainda está longe de ser esgotado, visto que são inúmeras as formas de se realizar essa prática. 

Escuto muitas pessoas falarem que não conseguem meditar. A principal queixa, que você já deve até saber, é: “não consigo ficar sem pensar em nada”; ou: “não consigo ficar parado!” Eu diria: que ótimo, é sinal de que você está vivo! Nosso corpo está em constante movimento, esse só cessa quando morremos. 

Temos no nosso organismo trilhões de células que se movem o tempo todo. Existe também o movimento dos nossos órgãos, dos líquidos, dos nossos fluxos sanguíneo e respiratório. Tudo isso ocasiona um ritmo interno próprio. Quando nos propomos a meditar, diminuímos o foco do mundo externo, com todos seus estímulos cada vez mais intensos e presentes em nossas vidas, e nos conectamos com esse mover interno, portanto, já não estamos totalmente parados. 

Uma das principais dicas para quem está começando a meditar é levar consciência para a respiração. Respirar conscientemente significa levar a atenção para o movimento de entrada e saída do ar pelas narinas. Essa pequena atitude já é o suficiente para nos trazer conexão com nosso pulsar interno. Ao nos atentarmos nesse movimento de entrada e saída do ar, podemos também perceber a expansão e contração dos nossos pulmões e abdômen, nossas costelas abrindo-se e fechando, e quais sensações tudo isso nos proporciona.

Uma ideia interessante que quero abordar aqui é a de que, a partir do momento que começamos a nos familiarizar com essa consciência, podemos levá-la para várias pequenas ações do cotidiano. O  autor budista Thich Nhat Hanh, no livro “Trabalho – a arte de viver e trabalhar em plena consciência”, fala do conceito de atenção plena, que consiste em nada menos do que realizar qualquer atividade do dia a dia com plena consciência, isso vai desde escovar os dentes, fazer uma refeição, dirigir, tomar um ônibus ou metrô, fazer uma ligação ou reunião de trabalho, realizar alguma atividade doméstica, ler um livro, descansar. 

Estamos praticando a consciência plena quando focamos  toda nossa atenção àquilo que estamos realizando, independentemente de qual seja a tarefa. Como consequência, nosso próprio ritmo interno está investido nessa ação. Esse não deixa de ser o princípio da meditação. Sendo assim, toda atividade do dia a dia, se realizada com atenção plena, já consiste em uma forma de prática meditativa. 

Podemos meditar fazendo uma simples caminhada, desde que estejamos atentos à cada movimento, cada passo, cada resposta que esse movimento provoca no nosso corpo, respeitando e escutando nosso fluxo. Podemos também  observar o que há ao nosso redor, porém é importante buscar a percepção de como somos influenciados internamente por esses estímulos externos. 

Estímulos sempre estarão presentes, sãos os sons, aromas, temperatura do ambiente. Quando estamos em plena consciência podemos observar a forma como somos afetados por eles. O mesmo ocorre com os estímulos internos, como nossos pensamentos. Podemos nos tornar observadores dos nossos pensamentos, dessa forma não somos controlados por eles, apenas observamos e podemos escolher deixá-los ir. 

É por isso que quando praticamos a meditação estamos nos libertando aos poucos de certos padrões, crenças e ilusões e entrando em contato com nossa verdade interna, gerando autonomia e familiaridade com nossos ritmos e criando padrões mais autênticos. 

Você sabe o que é Sincronicidade?

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Sabe quando acontecem algumas coincidências em nossas vidas que não sabemos explicar, como quando pensamos em alguém e recebemos uma ligação desta pessoa ou quando temos um sonho e algo muito parecido com o que sonhamos acontece no dia seguinte?

Carl G. Jung, fundador da psicologia analítica, chama isso de sincronicidade.

Um dos pontos de partida para o estudo deste conceito foi uma conversa que Jung teve com Albert Einstein sobre a teoria da relatividade. Nesta época ele começou a associar a relatividade do tempo e do espaço com os fenômenos psíquicos.

A teoria da sincronicidade considera que existe uma unidade oculta entre a psique e a matéria, que estão de alguma forma interconectadas. O mundo externo pode muitas vezes refletir o que está no nosso mundo interno.

Sendo assim a sincronicidade é definida como uma coincidência significativa entre um evento psíquico, como um sonho ou pensamento, e um evento no mundo não-psíquico, de forma que não existe nenhuma relação causal entre eles e que os dois ocorrem aproximadamente ao mesmo tempo.

Estas coincidências somente podem ser chamadas de sincronicidade se de fato possuírem algum sentido para nós. Jung descreve o exemplo de uma paciente que estava contando um sonho com um escaravelho e enquanto isso um inseto semelhante a um escaravelho se debatia no vidro da janela. Neste caso a imagem do sonho coincidiu com um acontecimento no mundo objetivo.

A compreensão destes fenômenos por nós se dá de uma forma muito mais intuitiva do que racional. Nosso inconsciente sabe de muito mais coisas do que imaginamos.

Estes eventos sincronísticos, se estivermos atentos, podem trazer algum sentido maior às nossas vidas, alguma nova direção, algum novo significado e a compreensão de que estamos conectados com o universo, ampliando a nossa consciência.

É como se sutilmente o universo estivesse validando e trazendo significado para o que sentimos e vice-versa.

A Vida é feita de Pequenas Mortes

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Nossa vida é feita de pequenas mortes. Estamos morrendo e renascendo a todo instante. Da mesma forma como as células do nosso corpo morrem e se renovam constantemente, como um novo dia começa e como as estações do ano se revezam, nossa vida acontece em ciclos.

Quando esses ciclos se encerram passamos por períodos de transições. Pode ser o final da infância e da adolescência, que são processos graduais, ou algo repentino, como a morte de alguém da família, o término de um relacionamento, a saída ou troca de um emprego.

Essas transições são oportunidades de reorganizar a vida e mudar antigos padrões para experimentar novos comportamentos. Por se tratar de um período de mudança muitas vezes nos sentimos perdidos, soltos e sem saber para onde ir ou o que fazer.

Somos levados para um lugar novo e desconhecido, um oceano sem forma, sem limites e sem data preestabelecida para acabar, o que pode criar um grande vazio.

Tenho passado por algumas destas transições e, certo dia, alguém me fez a sugestão de que eu buscasse a sensação de estar boiando no mar, sem pensar muito ou tentar controlar qualquer situação. Eu parei para refletir e me dei conta de que não sei boiar. Para conseguirmos flutuar na água precisamos somente encher os pulmões de ar e relaxar, confiar e perder um pouco o controle, o que é para mim uma grande dificuldade.

Algumas fases da nossa vida, como quando passamos por mudanças, exigem exatamente isto, que possamos abrir mão do controle para que o corpo e a mente possam se reorganizar e assimilar os novos aprendizados, como uma preparação para o que está por vir.

São estes períodos que nos convidam a entrar mais em contato com nossos sentimentos, insights, sonhos e imagens possibilitando assim a criação de padrões próprios e autênticos. É o momento de confiarmos na vida e estarmos prontos para o que ela tem para nós.

Neste fim de ano quero aprender a boiar, preciso acomodar as minhas mortes.

Com ou sem açúcar?

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Relacionamento é um tema bastante complexo e que desperta grande interesse na maioria das pessoas, não é verdade? Relacionar-se com o outro nunca foi tarefa das mais fáceis, já que envolve, entre outras coisas, o autoconhecimento. Tenho percebido, porém, uma dificuldade maior de encontro entre as pessoas nos dias de hoje.

Se pararmos para observar o nosso momento atual, podemos perceber que estamos passando por profundas transformações, grandes revisões de valores e por uma flexibilização de padrões sociais e comportamentais. Já não precisamos mais conviver com as antigas definições de papeis masculinos e femininos e nem com regras e imposições de outros tempos.

Como ponto positivo ganhamos um mundo com mais espaço para a diversidade e mais liberdade nas escolhas. Em contrapartida, talvez possamos estar um pouco perdidos, sem saber muito bem como agir em alguns momentos. Estamos em fase de construção. O terreno ainda é incerto, o que gera insegurança.

Precisamos, quem sabe, de um pouco de calma. Mas calma é o que menos temos encontrado por aí, artigo raro no mercado. A vida anda cada vez mais acelerada. Existe uma busca por resultados imediatos. Perdemos também um pouco da paciência e do fascínio pela conquista, pelo cortejo. Há menos tempo para o encantamento e o mistério. Temos, ainda, uma série de aplicativos e recursos tecnológicos à nossa disposição, o que nos dá acesso a uma gama enorme de opções.

Toda essa pressa e todos esses recursos, quando não são bem administrados, só ajudam a mascarar ainda mais nossos medos, e assim nos olhamos cada vez menos (a nós mesmos e uns aos outros) aumentando os vazios e as distâncias.

Se nos deixarmos levar por essa energia do medo ficaremos parados. Nossas almas precisam seguir suas jornadas e continuar encontrando umas às outras para que possamos evoluir. É bem fácil de olhar em volta e observar que muitas pessoas estão deixando de se envolver, de se abrir para o outro porque podem se deparar com um trauma antigo, porque o outro pode não corresponder às expectativas, porque pode não dar certo…

Mas e daí se não der certo? A vida é feita de tentativas e erros e são os erros que nos fazem crescer e andar para frente. Carl G. Jung dizia:

“Não há despertar da consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão.”

Não vamos nos distrair e nos distanciar da nossa própria alma. E também não vamos deixar o medo complicar demais as coisas. Quando estivermos interessados em alguém e resolvermos tomar um café, a única coisa que precisamos saber é: com ou sem açúcar? O resto deixa fluir…

Por que às vezes precisamos parar e respirar?

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Talvez uma das nossas maiores dificuldades no mundo de hoje seja parar. Simplesmente parar. Estamos em constante movimento, em um ritmo cada vez mais acelerado, mas muitas vezes sequer sabemos para onde este movimento está nos levando. Não estamos parando nem para respirar!

Participei recentemente de um encontro de meditação, e a maior dificuldade encontrada pelos participantes era justamente permanecer alguns poucos minutos com o corpo totalmente imóvel. Ao ser questionado sobre por que isto acontece, o guia da prática respondeu que é o nosso ego que está querendo nos tirar do foco, por isto surgem a dor, o desconforto, a vontade de trocar de posição, o sono, ou pensamentos completamente irrelevantes quando tentamos ficar quietos.

Mas o que podemos fazer para não perdermos o foco, que neste caso seria entrar em contato com nós mesmos?

Respirar! Sim, nosso corpo pode nos ajudar! Quando entramos em contato com o corpo, e podemos fazer isto simplesmente colocando a atenção na nossa respiração, na entrada e saída do ar pelas nossas narinas, nos conectamos mais profundamente com nós mesmos, permanecemos no momento presente, no aqui e agora, nossa mente relaxa, e podemos encontrar algumas respostas com mais tranquilidade. Elas estão todas em algum lugar dentro de nós.

E de que forma podemos usar isto, esta simples pausa, também no nosso dia-a-dia tão corrido?

Podemos tentar meditar um pouco todos os dias pela manhã, por exemplo, e isto já seria incrível. Mas além disso, você já parou para pensar quantas vezes durante nossa semana ou nosso dia ficamos tomados pela ansiedade, ou por emoções como a raiva, o medo ou a tristeza? Estas emoções se manifestam no nosso corpo, e quando entramos em contato com elas, o que também pode ser feito através da respiração, impedimos que elas assumam o controle, retomando a calma e a serenidade que precisamos para tomar alguma decisão.

Isso acontece porque quando nosso corpo apresenta emoções intensas, nossos batimentos cardíacos aumentam, a respiração se torna curta e ofegante e nosso corpo fica tenso. Ao praticarmos a respiração consciente, além de trazermos nosso foco para o presente, e não para as emoções, fornecemos o oxigênio que o corpo precisa para relaxar e para não sermos tão reativos.

A Yoga nos ensina muito bem como praticar esta respiração mais consciente. Ela deve ser diafragmática, ou seja, devemos encher nossa barriga de ar, e não o peito. E o ar entra e sai pelas narinas, de uma forma mais lenta e profunda.

Um bom exercício para fazermos quando estamos ansiosos é imaginar uma bexiga se enchendo bem lentamente dentro do nosso corpo enquanto estamos inspirando, esvaziando depois todo o ar pelas narinas. Isso pode ser feito repetidas vezes.

As abordagens de estudo da psicologia que enfocam a relação mente-corpo, como a Bioenergética, de Alexander Lowen, também conferem extrema importância para a respiração. Lowen nos diz que da mesma forma como os nossos pensamentos e estados emocionais podem alterar a nossa respiração, o caminho inverso também é verdadeiro. Ou seja, esta pode ser uma excelente ferramenta para termos um maior domínio das nossas ações.

Então, antes de dar aquela resposta atravessada por causa da raiva, de deixar de tomar uma atitude por causa do medo, de deixar o desânimo tomar conta do nosso corpo por causa da tristeza…para, respira fundo, e segue em frente.

Ah, e se for alegria, satisfação e sensação de bem-estar, respira bem fundo também e deixa elas tomarem conta do corpo todo!

Parece muito simples, e é, mas nós não costumamos pensar sobre isto.

Respira, respira, respira…

O Outro como Reflexo de Nós Mesmos

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Quantas vezes em nossos relacionamentos amorosos nos deparamos com discussões que não estão nos levando a lugar algum? Quantas vezes nos irritamos e quando paramos para pensar não sabemos nem o que nos causou tanta irritação?

Ao contrário do que imaginamos, quando nos relacionamos os aspectos inconscientes da nossa personalidade muito frequentemente estão nos guiando mais do que a nossa própria consciência.

No nosso inconsciente encontra-se nossa sombra. Jung nos fala que nela podem estar contidas tanto características positivas, como nossos potenciais não desenvolvidos, quanto negativas, que são todas as coisas que rejeitamos, não queremos olhar, não aceitamos ou não reconhecemos em nós.

A forma mais comum desses conteúdos chegarem à consciência é através da projeção. Enxergamos no outro, sem perceber, tudo aquilo que não conseguimos enxergar em nós.

Por isso muitas vezes, nos relacionamentos, o que nos incomoda no outro ou o que mexe profundamente conosco, causando uma forte emoção, pode estar sinalizando algo que precisamos mudar ou simplesmente enxergar em nós. É como se fosse um espelho. Estamos vendo nosso próprio reflexo no outro.

É importante pararmos para pensar sobre a razão pela qual o que o outro fez está nos incomodando ou mexendo tanto com a gente. Não se trata de mudar o outro, apontar ou acusar, mas sim de entender o que acontece conosco e o que podemos fazer a respeito disso.

Tudo o que surge em um relacionamento amoroso parte de nós mesmos, é uma projeção do nosso eu, reflete o que o somos, a nossa identidade. Antes do outro, está o eu, como eu sou, o que eu quero ser, o que eu desejo, quais são as minhas frustações, minhas expectativas e minhas dificuldades.

Não podemos nos conhecer profundamente se não estivermos em relação. É através dela que nossas características que estão mergulhadas no nosso inconsciente podem vir à tona, tornando-se conscientes. Isso não ocorre somente nos relacionamentos amorosos. O mesmo também acontece nas nossas relações com a família, amigos, chefes e colegas de trabalho. 

É claro que este tema é muito complexo e não se encerra em apenas um artigo, o que ficam aqui são algumas questões para reflexão. Nos conhecermos não é um processo fácil, nem nos relacionarmos com o outro, justamente pelo fato de que o relacionamento nos leva ao encontro dos nossos pontos mais frágeis, que temos dificuldade de ver. O importante é estarmos atentos ao que está nos trazendo desconforto, para podermos seguir o caminho em direção ao nosso autoconhecimento.